quarta-feira, 10 de junho de 2009

Ku Tsivelela Mwana

No presente post pretendo abordar o ritual ku tsivelela mwana. Este ritual faz-se no sul de Moçambique ao recém-nascido três dias após a queda do cordão umbilical. Este ritual visa por um lado inserir a criança na sociedade, e por outro lado protegê-lá contra diversas intempéries, tais como: mau olhado, cólicas, diarréia, insônias e feitiço. De um modo geral o ritual ku tsivelela promove um crescimento harmonioso da criança a todos os níveis.

O ritual processa-se do seguinte modo: despe-se a criança e procura-se um xirhenguele (telhaços de panela de barro), põe-se carvão aceso no xirhenguele e coloca-se uma substância chamada baço. A criança deve ser segurada como se estivesse numa balança, e a ervanária ou a pessoa que dirige o ritual deve ir girando a criança de pernas abertas até ela urinar.

O facto de a criança urinar e apagar o lume é um sinal de que o ritual correu bem. Depois, a dirigente do ritual pega numa chávena ou copo, deita água e coloca um pó extraído de uma raíz. Ela toma desse preparado para mostrar que não é nocivo, e dá também à mãe e ao bebé.
Ainda com a criança despida, coloca-se uma pele seca de um animal enfiada numa linha de preferência preta atravessada ao ombro da criança, para que ela não se assuste a noite, caso veja vultos ou feiticeiros.
Após o cumprimento do ritual, são recomendados à mãe da criança alguns medicamentos e tratamentos, nomeadamente:
• Remédio que se põe de molho e administrado à criança três vezes por dia;
• Remédio do caracol, que deve ser administrado duas vezes por dia: as 6 e as 18 horas. Ao dar este remédio ao bebé, a mãe deve posicionar-se na porta principal de casa,virada ao pôr do sol;
• Remédio de cozer na panelinha de barro, três vezes ao dia sem hora prescrita e sempre que a criança tiver cólicas pode ser administrado na dose de 2 colheres de chá;
• Tratamento de amarrar o botão na mão direita do bebé por tempo indeterminado para que não tenha olhos tortos.
Os três remédios devem ser administrados em simultâneo todos os dias, durante dois anos. O incumprimento desse período pode trazer consequências desagradáveis à criança, como: epilepsia, demência e mau desenvolvimento psico-motor.
Apesar desses remédios serem todos importantes, importa referir que o remédio do caracol tem muita relação com as fases lunares, uma vez que tomado de forma correcta evita a epilepsia.

ADENDA:
Agry,
Retornei à minha fonte e pedi explicação mais apurada de alguns termos que questionas:
Remédio que se põe de molho: mistura de três tipos de raízes grossas;
Remédio do caracol: utiliza-se a Carapaça do caracol como recipiente para colocar o remédio, porque acredita-se que tenha poderes mágicos.
Espero ter satisfeito a sua inquietação.
Obrigada,
Nyikiwa

17 comentários:

  1. Ola Nyiki
    Parabéns por esta aventura pelo nosso outro lado. Espero que depois do nascimento com que começaste possamos seguir um crescimento que passa por diversos outros rituais com funções não só para o homem como também para a organização social.
    PC

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  2. Olá irmã,
    Em primeiro lugar quero te dar os meus parabéns pelo blog, sobretudo pela temática.
    As práticas culturais acompanham nos no dia, e com o passar do tempo começam a ser objecto de várias interpretações, pois nalguns casos entram em choque com a racionailidade e a lógica daí que espaços como este onde podemos nos debruçar sobre elas e porque não dar uma recauchutagem na “tradição” mum contexto de modernidade (se é que isso é possivel) fazem muita falta, mais uma vez meus parabéns.

    Começas com um tema muito interessante, os rituais que marcam o período pós parto.Eu apesar de não ter tsivelelado o meu filho, dei-lhe todos os remédios, (desde o caracol até a panelinha), só tenho dúvidas em relação a hora de parar, tanto é que quando oiço conversas “ a lua hoje tá mal” tratologo de aquecer a panelinha. Por falar em lua gostaria e espero que vás mais a fundo nessa questão, assim podemos trocar ideias e quem sabe dissipar certas dúvidas que ficaram no ar.

    Fico aqui ansiosa esperando por mais.
    Bjs

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  3. Caros amigos,

    Obrigada por virem obsequiar o meu filho! Rsrsrsrrss...
    Yndongah, prometo retornar a fonte de onde extrai a descrição do ritual para elaborar mais em torno da interligação entre a lua e a saúde da criança.

    Um trecho do teu comentário que chamou minha atenção: "As práticas culturais acompanham- nos no dia-a-dia, e com o passar do tempo começam a ser objecto de várias interpretações, pois nalguns casos entram em choque com a racionalidade e a lógica". Olha, há uma ideia quase que generalizada de que os rituais e algumas práticas culturais são irracionais e sem lógica. Partindo dos conceitos básicos de lógica e racionalidade nota-se que tais praticas têm sim uma razão para serem executadas, senão vejamos: por lógica, segundo o dicionário básico da língua Portuguesa é a ciência que estuda as leis do raciocínio, e racionalidade vem de razão e raciocínio que significam faculdade de raciocinar, justiça, motivo, etc...

    Certas coisas não fazem sentido para nós, mas fazem para os outros. Discordo da ideia de one size fits all! Não, não somos produtos da mesma série. O mundo é feito de diversidade.
    O raciocínio independentemente de ser correcto ou não, tem um motivo, porque uma coisa é a verdade material e outra a verdade formal.

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  4. São geralmente os experts que surgem, nos bicos dos pés, a produzir os primeiros comentários em blogues recém-nascidos, rrsrsss ( que me perdoe quem me antecedeu).Pretendo desta forma justificar(?) os disparates que se seguem.
    Bem, antes dos disparates, desejo felicitar-te por este novo projecto!
    Remédio que se põe de molho, do caracol, de cozer na panelinha, de amarrar o botão…quer-me parecer que terás que pensar em criar um glossário. Eu não entendi, e bem gostaria, e estou certo que não estou só nesta dificuldade.Será mesmo um disparate a minha sugestão?

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  5. Parabens, Nyikiwa! Deste um pontapé em cheio, tal como outros, espero beber mais dessa fonte.

    PS: Concordo com o Agry, apesar de o post ser top gama, é muito generalista para quem nao entende a essencia desses rituais. Bjx

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  6. Caros Agry e Ximbitane,

    Muito obrigada pela visita e encorajamento! Agry nao e um disparate nao, tens toda razao. Prometo colocar o glossario, desculpem por nao te-lo feito no proprio post.

    Khanimambo, ochucurro ou Assante Sana (obrigada)!

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  7. Olá Vânia Antropóloga,
    Parabêns pela coragem e ousadia. Se gerir um blog não é fácil, o que dizer da gestão de dois? É um acto heroic (se bem sucedido, claro fique). Gostaria que fizesses uma espécie de transposição desses rituais africanos (ou africanizados) para as realidades europeia, australiana e norte-americana, em que não se faz o ku tsivelela mwana. Será que as crianças lá sofrem de epilepsia, cólicas, doença da lua por não seguirem tais rituais? O que explica que lá as mães não precisem colocar as suas crianças recém nascidas no lume até urinarem e aqui entre nós as mães precisem? Seria um debate interessante; um verdadeiro incest cultural.
    N.K.

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  8. Caro Nero,

    Muito obrigada pela visita e intervenção no meu blog! De facto coloca um assunto muito importante, ao questionar a universalização desse ritual que celebra-se após ao nascimento da criança em certas sociedades africanas, como as do sul de Moçambique. No meu entender não se deve fazer uma transposição dos rituais africanos ou “africanizados” para contextos ocidentais, porque cada sociedade tem suas especificidades. Cada sociedade tem sua cosmologia (visão do mundo ou interpretações sobre o mundo, sobre a realidade e os factos que nela ocorrem). Pretendo com isso dizer que apesar de as sociedades Europeias, Australianas e Americanas não celebrarem os rituais nos moldes do ku tsivelela mwana, todas sociedades têm os seus rituais para inserir o indivíduo na sociedade. Não existe uma sociedade desprovida de rituais ou de ligação com um ser sobrenatural.
    Pode levantar-se outra questão: se não é aconselhável transportar modelos de desenvolvimento e de funcionalidade de outros contextos, então porque é que em África “somos impostos” modelos de outros contextos”?
    Essa questão encontra explicação na hegemonia que os países Ocidentais tem sobre os Africanos em termos económicos, mas esta é outra discussão.

    O sofrer ou não sofrer de epilepsia e cólicas, etc…, por não ter feito ou cumprido o ritual à risca, é em função das crenças das pessoas. Mesmo no nosso contexto (sul de Moçambique), há pessoas que mesmo sendo aconselhadas a submeter os bebés a esse ritual, não o fazem, e qualquer infortúnio que ocorra com a criança é interpretado como uma “punição” pelo incumprimento do ritual. Certamente que o mesmo acontece noutros contextos.

    Espero ter ido ao encontro da sua questão.

    Obrigada!

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  9. Nyikiwa
    Muito obrigado. Gostei deste último comentário- esclarecimento
    Saludos

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  10. Thanks pelo esclarecimento cara Nyikiwa. Percebo cada vez menos da cientificidade das ciencias sociais e antropológicas. A crença vai determinar o destino dos seres. Esses são determinismos tendenciais (que comportam muitas excepções)e não determinismos rígidos, próprios das ciências exactas onde "palha seca em fogo vivo sempre arde". Isto é, se acredito que algo de mau vai acontecer se eu não "tratar" um recém-nascido, em função da minha crença, tal mal pode acontecer, como pode não acontecer!! Agora não entendi mesmo.

    Nero Kalashnikov

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  11. Nero,

    As Ciências Sociais têm um objecto de estudo complexo, subjectivo e dotado de vontade. Esse objecto de estudo é um homem. O homem não é necessariamente o mesmo em todos os lugares e épocas. Mesmo num certo contexto as pessoas não são iguais. Os Moçambicanos não são necessariamente iguais.
    O Nero não é a mesma pessoa todos dias, pois não? Então, como forçar todas as pessoas a regerem as suas vidas pelos mesmos princípios?
    Quanto a cientificidade das Ciências Sociais e da Antropologia concretamente, devo dizer-lhe que diferentemente das outras ciências, ditas exactas ou objectivas, as sociais não são taxativas, decorrente do seu objecto de estudo que já expliquei.

    Citando a Antropóloga Americana Ruth Benedict, “o mundo é da cor dos óculos que colocamos”.

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  12. ... E a cor dos meus oculos diz que estamos a precisar de outras materias aqui neste espaço!

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  13. Sim mana Ximbi, brevemente. Tenho um material no prelo. Aguarde!

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  14. Ola irmão, meu nome e Francisco Allison Peixoto, moro no Brasil, e adorei seu blog. Gostaria que você se for possivel, me falasse da religião antiga de Moçambique, os deuses antigos de seu país. Adoro o assunto e se vc tiver msn me add fallisonp@hotmail.com e meu email para contato fallisonp@gmail.com.
    Desde ja agradeço atenção.

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  15. Boa mano! Acredito que terei uma boa nota, gracas a este topico. Nao me esquecerei de mencionar a fonte ok? Khanimambo

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  16. Parabéns Nyi!
    Para nós, nova geração, é muito bom saber de forma aberta aquilo que as avòs fazem questão de esconder até crescer e ter filhos... Mas baralho-me porque fico entre a Ciência , que me parece mais lógica e clara, e a Tradição que é muito omissa e de para poucos. Gostava que partilhasses (se puderes) sobre o que a ciencia diz destas ervas. pois já vi casos de algumas maes em que os seus bebes tiveram k ser operadas, porque o estomago da criança queimou com o remédio de lua/ panelinha.
    Parabéns e sucessos..

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